Lars_Divulgação

Desde que o Rio de Janeiro se candidatou para receber os Jogos Olímpicos de 2016, temos alertado sobre a poluição na Baía de Guanabara e a pretensão de despoluí-la. Temos uma larga experiência olímpica, além de velejarmos frequentemente na raia da próxima Olimpíada. Sabíamos que a total despoluição das águas da Baía não aconteceria. Com o passar do tempo, as autoridades falaram em 80% e agora já se fala em 60%.

 

Não podemos negar que há obras em curso, é só observar o local. Essas alterações e ações podem até chegar a melhorar o atual quadro, mas é algo muito pequeno. Apenas o recolhimento do lixo das águas da Baía não é uma solução para o grave problema que enfrentamos. Isso é somente algo paliativo e muito pouco diante da real situação. Hoje, a Baía de Guanabara está extremamente poluída e vínhamos alertando sobre isso. Mas o que conseguimos perceber é que só estão empurrando o problema para frente.

 

E é importante deixar claro que não estamos apenas criticando, também demos sugestões. Sugerimos algumas medidas para as autoridades e responsáveis. A nossa posição é de antecipar um desgaste, que, inclusive, já está acontecendo com todas essas matérias de repercussão nacional e internacional.

 

Em relação a alguns depoimentos de estrangeiros sobre o local em veículos internacionais, acredito que há certo exagero. Concordo que as águas da Baía de Guanabara estão poluídas, com forte odor, contaminação, coloração repugnante e detritos flutuantes. Mas é exagero dizer que não se pode encostar na água. Até hoje não tivemos nenhum registro de algum velejador que tenha sido contaminado ou contagiado por alguma doença oriunda das águas sujas da Baía de Guanabara.

 

Junto com outros atletas experientes na vela, apresentei a raia de Búzios como alternativa para as disputas da modalidade nos Jogos do Rio. O local tem ótimas condições de mar e vento e para a prática da vela. A maior dificuldade talvez fosse o fato de que Búzios não tem uma marina, porém, a Baía de Guanabara também não. Ou seja, em qualquer um dos lugares teriam que ser realizadas obras com esse fim.

 

Porém, um complicador, depois de tanto tempo, pode ser a demora em se tomar a decisão. Creio que o tempo para se mudar as regatas de local já tenha passado. A maioria das equipes que vem para o Rio já fechou suas bases e também já está realizando estudos técnicos sobre a Baía de Guanabara. Mudar tudo agora ficaria complicado e seria radical criar toda uma logística neste paraíso do litoral Fluminense. Contudo, negar o problema é ainda mais radical e, com certeza, a pior solução.

 

Em outros Jogos Olímpicos, o palco das disputas de vela foi escolhido não pela proximidade do epicentro das competições, mas pelo critério de melhores competições para a prática deste esporte. Como exemplos temos o México em 1968 (com a Vela em Acapulco); Munique 1972 (Kiel); Montreal 1976 (Kingston); Moscou 1980 (Tallin); Los Angeles 1984 (Long Beach); Seul 1988 (Pusan); Atlanta 1996 (Savannah); Pequim 2008 (Quindao); e Londres 2012 (Weymouth).

 

As autoridades falam em tratar saídas de esgoto nas proximidades das raias de regata. Isso não resolverá, pois a Baía é dinâmica e o esgoto despejado in natura em vários municípios da Baixada Fluminense, onde a taxa de saneamento é próxima de zero, chega às raias de competição por meio do movimento das marés. Esta poluição interfere também nas águas de Copacabana, palco das provas de maratona aquática e natação do triatlo olímpico. A escolha do horário das provas próximo do final do ciclo da maré enchente será uma das soluções.

 

A crítica precisa ser construtiva. União de sociedade, ambientalistas, esportistas e todos os níveis governamentais em favor do bem comum: seriedade, execução e resultados. Temos que unir todos os envolvidos para mitigar a poluição. Qualquer avanço é válido porque ficará como legado das Olimpíadas no País.

 

O que temos que fazer é encarar o problema de frente. Negar a existência da situação e afirmar que as águas da Baía já se encontram acima dos padrões internacionais é faltar com a verdade. O nosso objetivo é contribuir e oferecer nossa experiência, com conhecimento de causa. Temos que fechar um pacto de compromisso que estabeleça metas para a melhoria da Baía de Guanabara, e proporcionar ao País, pelo menos, algum legado dos Jogos Olímpicos 2016.

 

Precisamos de um pacto pela Baía de Guanabara. Pacto entre a sociedade, municípios, Estado do Rio de Janeiro e Governo Federal. Vejamos a solução adotada em Chesapeake Bay, com uma autoridade responsável pela baía que já foi poluída, a “bay authority”, no estado de Baltimore, que coincidentemente é estado parceiro do Rio de Janeiro com um histórico de convênio dos parceiros das Américas, entre os EUA e o Brasil.

 

Lars Grael, associado da Atletas pelo Brasil